quinta-feira, junho 21, 2018
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Por Rosenildo G. Ferreira

O EFEITO DEMONSTRAÇÃO E OS BENEFÍCIOS DA GLOBALIZAÇÃO

O grande mérito das pesquisas qualitativas é a capacidade de auscultar com mais precisão o que passa no coração dos integrantes do universo avaliado. Neste caso, o grau de diversidade no mercado corporativo, envolvendo as PCDs, os afro-brasileiros, as mulheres e os LGTB+. A pesquisa que nos é mostrada neste relatório exibe um retrato preocupante, contudo, permeado de esperança. Até porque, até bem pouco tempo atrás, estes temas sequer eram considerados como objetos de debate no mundo corporativo.

Um exemplo de fragrante ainda é o sexismo. Mesmo no Brasil, as mulheres já representam uma fatia expressiva do consumo. Dependendo da classe social, elas já são maioria entre as chefes de família. No quadro geral, em nada menos do que 38,7% dos lares (IBGE, 2010) é a mulher, com ou sem marido/companheiro, que paga as contas da casa e coloca a comida na mesa! Mesmo assim, elas ainda são enxergadas de uma forma torta pelo mundo corporativo. É aí que entra em cena o machismo atávico da sociedade brasileira.

Por certo, este problema não se restringe aos países que integram o Novo Mundo. Na Europa e na África, onde diversas mulheres comandaram nações e até chefiaram exércitos, o quadro é menos desesperador, mas nem por isso a participação da mulher no campo educacional, político e no mundo corporativo reflete a sua proporcionalidade na população. Apesar de sempre terem tido de trabalhar duro, as mulheres ainda são vistas como as guardiãs do lar. Quem é que nunca ouviu frases do tipo “Lugar de mulher é na cozinha” ou “Isso não é coisa para mulher”.

Pode-se dizer que um dos impulsos nesta direção foi a progressiva conversão das pessoas de consumidores para clientes em suas relações com as marcas. Acrescente-se a isso os efeitos positivos da globalização e do barateamento dos mecanismos de comunicação e difusão de informações. Tudo isso ajudou a transformar boa parte do mundo numa espécie de Aldeia Global (Marshall McLuhan, 1962). Hoje, as tendências e inovações levam apenas um átimo para chegar a lugares que antes eram praticamente inacessíveis, despertando curiosidade e se incorporando ao repertório local, no que tange à expectativa de direitos e/ou estilo de vida.

Em boa medida foram estes fatores que acabaram propiciando a abertura na agenda do mundo corporativo para a questão da diversidade, no Brasil. Certamente, não foi por “geração espontânea”. O efeito-demonstração, aliás, aparece em diversas respostas e conclusões da pesquisa. Ou seja, os ambientes corporativos mais afeitos a esse tipo de conduta propositiva são aqueles nos quais o C-Level está empenhado em ser o agente da mudança. Mas é bom ressaltar que até neste contexto “top-down”, muitos subordinados ainda se sentem livres para agir a partir de suas crenças pessoais, mesmo quando elas destoam ou colidem frontalmente com as da empresa.

 

E por que isso acontece? As empresas são organismos vivos, formadas por pessoas e, por isso mesmo, configuram-se em ambientes complexos, uma vez que as pessoas são resultado direto de suas idiossincrasias e, por que não dizer, de suas circunstâncias.

 

A MÍDIA COMO DEFINIDORA DA PAUTA SOCIAL

Mas seus valores, costumes e crenças não são apenas passados a partir do ensinamento doméstico. Sofrem também a influência do ecossistema. De forma geral, a comunicação (entendida como a atividade global, que abarca também a propaganda) possui uma contribuição importante neste processo. Isso porque funciona como uma “caixa de ressonância” de valores e condutas e se torna muitas vezes capaz até de ajudar a operar mudanças em profundidade. Especialmente nas sociedades ocidentais e fundamentalmente naquelas onde o pluralismo de ideias é a norma. São nestes locais que a pauta do debate diário acaba sendo definida/influenciada pelos meios de comunicação, como pontua a jornalista e pesquisadora Eliziane Lara (2014). “Se não está na mídia, não existe!”.

E o problema é que a mídia não toca nestas questões. Não na medida em que poderia ser parte da mudança. Em geral, as reportagens sobre PCDs, mulheres, LGBT+ e os afrobrasileiros se adequam ao calendário de efemérides: Dia Internacional do Deficiente Físico, Dia da Mulher, Parada Gay, Mês da Consciência Negra – e por aí vai.

Como, em geral, estas reportagens servem apenas para “cumprir tabela”, o que domina é a forma rasa de abordar/debater o assunto. Mesmo as iniciativas um pouco mais “fora da caixa” carregam um viés constatatório. Ou seja, nada fazem além de apenas constatar o problema e repetir, ad nauseam, as pautas de edições anteriores. Note, não se trata de reciclagem, mas repetição pura e simples.

Neste quesito, a propaganda também possui um papel preponderante. Afinal, se é verdade que ela existe para mostrar o que existe de melhor em matéria de beleza, performance e outros atributos que deveriam ser desejados e perseguidos por 10 entre 10 pessoas, o que acontece quando seu olhar sobre a sociedade é tortuoso e deformado? Por anos a fio, os fabricantes de cerveja e de automóveis, apenas para citar os dois mais segmentos mais recorrentes, trataram as mulheres como um mero objeto.

 

Aliás, em muitos casos fizeram pior. Pois, pessoas com deficiência e negros, segundo estes comerciais, jamais beberiam cerveja ou andariam de carro, a se levar em conta sua mais completa ausência nas campanhas de marketing! Ao alimentar padrões de comportamento, os meios de comunicação e a propaganda acabam influenciando na formação do mindset das pessoas. Contudo, isso funciona muito mais rápido para excluir do que no sentido contrário. Afinal, a desconstrução é sempre mais fácil do que a construção.

E o debate sobre a diversidade é uma prova viva deste fenômeno. Nos últimos 20 anos, campanhas de mídia, merchandising social em novelas e reportagens (muitas quais incentivadas por prêmios concedidos por entidades setoriais) começaram a pontuar alguns dos aspectos relevantes da diversidade. Contudo, os avanços no dia a dia são tímidos, como mostram de uma forma quase que brutal os dados colhidos por meio da pesquisa “Diversidade no Contexto das Empresas Brasileiras”.

 

Boa leitura.

http://imirante.com/paralimpiadas/2016/brasil-nos-jogos-paralimpicos/

http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-12/percentual-de-negros-em-universidades-dobra-mas-e-inferior-ao-de-brancos

https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2016/01/28/diferenca-cai-em-2015-mas-negro-ganha-cerca-de-59-do-salario-do-branco.htm

http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/05/mulheres-comandam-40-dos-lares-brasileiros

LARA, Eliziane: Para Entender o Jornalismo. Autêntica, 2014. 22 p.

 

 

Primeira parte do texto: http://aroeiracriativa.com.br/voce-e-parte-do-problema-ou-da-solucao/

Autora da pesquisa:  4CO (“O panorama da diversidade nas maiores empresas brasileiras”) 

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