Diversity Washing, um atentado contra as políticas de Diversidade

O termo “Green Washing” – uma empresa que divulga empregar práticas ecologicamente corretas ou sustentáveis, mas não fez nenhuma mudança além de colocar latas de coleta seletiva na cozinha – é bastante utilizado por organizações ambientais e seus ativistas. Porém o termo Washing parece não ter se limitado a área da ecologia e avançou para o terreno da Diversidade.

Empresas com equipes variadas tendem a lucrar até 33% a mais que equipes homogêneas (estudo da McKinsey Co, 2017) ,embora seja perceptível mudanças no comportamento da mídia, principalmente após os EUA e Brasil terem eleito um negro e um nordestino como presidentes- respectivamente-, as minorias ainda não sentiram mudanças nas estruturas organizacionais.
“Existe um desrespeito completo quando falamos de equiparação e reparação nas temáticas de diversidade. Assim como as escolas usam capoeira para justificar que cumprem a obrigatoriedade da lei 11.645 de Ensino da História da África e dos Afrobrasileiros, muitas empresas usam eventos corporativos e peças publicitárias para cumprir por tabela as temáticas de Diversidade cada vez mais latente”, adverte Alan Soares, fundador do Movimento Black Money.

Segundo estudo da consultoria Santo Caos lançado em São Paulo no dia 26/03, empresas que incentivam internamente programas de diversidade possuem 16% maior engajamento de seus profissionais (negros e não negros).
“Ações de algumas empresas no dia 08 de Março demonstram que mulheres e outras diversidades não possuem participação, muito menos inserção em níveis estratégicos pois estas organizações realizaram ações de marketing ofensivas e sem representatividade real, como o caso de uma rede de fast food, no Dia Internacional da Mulher”, afirma Nina Silva – Presidente do Movimento Black Money e Project Manager na Thoughtworks.

Cada vez mais presentes a partir da transformação digital, as denúncias e flagrantes de atos abusivos discriminatórios surgem na rede e provocam reações de consumidores e militantes a exemplo do ocorrido com uma grande franquia de hambúrguer, que nesta semana teve registrado um caso de injuria racial atrelado a sua rede, quando um cliente foi denominado como “macaco” por um funcionário no cupom fiscal. “Fatos como este tem sido cada vez mais corriqueiros, o que dizer de uma loja de roupas, instalada no bairro dos Jardins (SP), que se diz voltada ao público gay? Que na festa de lançamento de coleção acusou e ainda registrou queixa contra jovens ,que eram os únicos negros da festa, de terem furtado um sabonete usado. Este é o retrato do Brasil Racista, em sua estrutura, que assassina Claudias e Marielles” relata Rodrigo França, sociólogo e ator da peça Contos Negreiros, sucesso de público no Rio de Janeiro que defende a assinatura da petição de repudio contra a loja. ( Link para petição contra a loja – http://bit.ly/repudioracismo )

 

A área da publicidade é uma das mais acusadas, de atuar neste processo de Diversity Washing, pelos ativistas pró diversidade. “As empresas não criam nenhum empecilho para aceitar o dinheiro dessas ditas ‘minorias’, produzem peças publicitárias utilizando-os _ caso recente do comercial estrelado pela drag queen Anny B e uma menina negra – mas não vi nenhum desses dois grupos representados na última contratação de trainees ou no board da empresa. Pior ainda foi ver que a peça publicitária pertence a mesma rede de hamburguês que tratou seu cliente como macaco, explicitando o paradoxo entre discurso e prática”, reforça Alan Soares.

“Mas mesmo usando de publicidade para mascarar falsas diversidades, algumas instituições recaem no antigo sistema discriminatório e explicitam nas mídias conteúdos que realçam o despreparo e até descaso, como foi o casa da campanha Black is Beautiful, onde o slogan de identidade negra foi utilizado para retratar um papel higiênico de cor preta, e da marca de sabonetes onde a modelo negra troca de pele com uma modelo branca.
Na última semana ainda foi noticiado o caso do aluno da faculdade que tirou foto e escarnou sobre outro aluno negro chamando-o de escravo no whatsapp com os colegas. Em tempo, a Instituição apenas suspendeu o criminoso.”, completou Rodrigo França.

A “lavagem da diversidade” é tido como o movimento atual de empresas que, por exemplo, até abonam as horas de trabalho de mulheres no dia 08 de Março mas não atuam em abusos diários dentro do próprio ambiente de trabalho, desde manterrupting a questões de assédio. “As empresas falam de diversidade de orientação sexual mas não possuem o mínimo conhecimento sobre como absorver homens e mulheres transgênero em seu quadro. As práticas do racismo institucional apenas ressaltam e reforçam as disparidades dentro das maiores empresas do país onde mulheres ocupam 13,7% e negros 4,7% do conselho executivo destas corporações.” ressalta Armando Julio, universitário de 20 anos, pré-selecionado no programa Shell Iniciativa Jovem, que buscou empreender junto ao MBM para lutar em prol da empregabilidade da população negra no Brasil.

“Em um país com legislação para empregabilidade de pessoas com deficiências em empresas temos apenas 1% dessa população empregada. Não basta instalar rampas e alças nos sanitários para quem tem problema de mobilidade se quando são absorvidos não estão em funções de visibilidade. Jovens aprendizes em sua maioria são negros mas não recebem treinamentos para real desenvolvimento sendo colocados em funções básicas administrativas com alto turnover por apenas estarem cumprindo números de obrigatoriedade sob legislação. ” diz Alan Soares.

Especialistas apontam que as lideranças das empresas tampam os olhos e se distanciam do desafio da Inclusão, por ignorarem o assunto e/ou falta de engajamento.”Treinamentos, mentorias, benchmark para gestores, RH e todos os funcionários são partes de um programa maior de inclusão, desenvolvimento e oportunidades para estes profissionais em todos os níveis da empresa, principalmente nos postos estratégicos onde a representatividade e alinhamento da prática com o discurso devem ser intensos. Empresas como Thoughtworks, Bayer , Adiq e Trader Brasil são exemplos de como posicionamentos das suas lideranças, dentro e fora do escritório, tornam-se pilares para a construção de políticas para Inclusão e equidade entre Diversidades” complementa Nina.

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