Como o advento do Filme Pantera Negra revolucionará as dinâmicas econômicas e sociais dos negros nas diásporas?

O filme Black Panther (Pantera Negra) é o primeiro filme da Marvel focado em personagens predominantemente negros e com um elenco predominantemente preto. O personagem principal está na Marvel em forma de quadrinhos desde 1966.

A partir da iniciativa do diretor negro, Ryan Coogler, o personagem ganhou as telonas de forma a marcar história. O mesmo entende exatamente como esse filme é fascinante para nossa cultura e tem usado do tema para criar discussões sobre raça e racismo.

Abordaremos alguns motivos pelos quais acreditamos que Pantera Negra será um marco nas relações econômicas e sociais da população negra, sobretudo nas Américas.

 

Do elenco

A experiência típica de um cineasta negro é que a maioria dos filmes tem um elenco principalmente branco. No máximo, ocorrendo uma pequena participação de pessoas afrodescendentes ou latinas (a cota). Black Panthers transformou totalmente este estigma, por ter um elenco quase totalmente preto. Nos fez lembrar de produções como as de Spike Lee mas as mesmas não possuem o apelo que o filme da Marvel consegue ter.

Em Pantera Negra, podemos citar apenas dois personagens brancos: o agente policial americano interpretado por Martin Freeman, e o vilão interpretado por Andy Serkis. A composição do elenco também criou controvérsias sérias nas primeiras apresentações do filme. Alguns espectadores brancos pareciam confusos ao verem tão pouco de si mesmos nas telas deste grande sucesso.

Claro, diz o diretor Coogler: é assim que os cineastas negros se sentem assistindo quase todos os filmes! E mudar o paradigma, fazer com que os brancos possam sentir o que sentimos ao longo de décadas é uma maneira que Black Panther encontrou de trazer reflexões sobre o assunto.

 

Da representação

Os super-heróis capturam a imaginação das crianças em uma idade precoce. Quando perguntamos às crianças o que querem ser quando crescerem, estamos pensando tipicamente em suas futuras carreiras. No entanto, as crianças majoritariamente nos respondem que desejam ser um super-herói ou uma princesa da Disney. Infelizmente, existem poucos super-heróis e “princesas” negros na tela para que elas se identifiquem.

Blade foi o último super-herói preto que foi um grande sucesso nos cinemas, e o filme foi classificado fora do alcance das crianças. Podemos dizer que Will Smith fez um bom trabalho como Hancock, mas o problema era que seu personagem gastava a maior parte do filme como um preguiçoso e em situação de alcoolimia. Com Black Panther, finalmente temos um filme que as crianças podem ver com um personagem negro positivo e todo um clã de pessoas negras heróicas (de ambos os gêneros).

O conceito de princesa da Disney é quebrado com a Shuri, princesa de Wakanda, irmã do Pantera Negra e o personagem mais divertido de toda a trama. A personagem vivida por Letitia Wright traz uma nova imagem feminina para jovens e crianças. Finalmente, uma nova gerão de crianças vai querer ser um super-herói preto quando crescerem!

Acreditamos também que crianças negras, principalmente as meninas, se inspirem na irmã do Rei de Wakanda e abracem a tecnologia e a inovação como uma oportunidade de transformação em suas vidas.

 

Da cultura negra

Hip-hop é uma parte importante da cultura negra, produzindo algumas das músicas mais dançantes e maiores popstars da industria musical. O diretor Ryan Coogler entendeu que, se o personagem Pantera Negra iria representar a cultura negra, ele precisaria de uma trilha sonora absolutamente assombrosa e também resgatar tradições ancestrais.

Os fãs americanos ficaram emocionados ao ouvir que a trilha sonora é encabeçada pelo próprio King Kendrick. Ele está acompanhado nesta faixa por Future, James Black e Jay Rock. O que falar sobre os tecidos, costumes e línguas africanas apresentados durante o filme?

O cuidado na preparação do elenco em colocar a acentuação tão vivaz e característica de alguns idiomas do continente africano, sim Wakanda é definitivamente uma linda representação do pedaço de Africa que reúne nossos anseios, nossas memórias genéticas e nosso sentido de pertencimento enquanto africanos e africanas nascidos em diáspora. Isso significa que o público cativo da Marvel (os tipos que vão para todos os filmes da Marvel, mas não sabem muito sobre a música negra e cultura) vão ter um curso intensivo em artistas e cultura negra.

Acreditamos que as pessoas sairão dos cinemas baixando o King Kendrick e com desejo de ter peças de roupas com tecidos africanos. Uma excelente oportunidade para empreendedores pretos desenvolverem negócios devido o aumento da demanda. Os empreendedores do estabelecimento Rap Burguer em São Paulo se atentaram para a oportunidade e já lançaram uma promoção associada ao ingresso do filme. São esses tipos de ações que potencializam a retroalimentação da economia negra criativa.

 

Do Mulherismo Africano

A maior parte da nossa atenção foi sobre a Pantera Negra e seu anti-herói, Erik Killmonger. No entanto, Dora Milaje (que é a guarda real composta por mulheres), tem uma importante participação no filme.

Cooler colocou fortes mulheres negras na vanguarda deste filme. Originalmente, as Dora Milaje eram um grupo de mulheres guerreiras que atuavam como guarda-costas do rei Pantera Negra. Cada uma dessas guerreiras vinha de uma tribo diferente de Wakanda e, segundo a tradição, também seriam as candidatas a rainha para um rei não casado. Não há como não associar essas guerreiras às nossas Candaces. As candaces eram as rainhas mães da realeza africana na antiguidade. Corajosas guerreiras, as rainhas candaces exerceram  funções políticas, sociais e culturais assumindo a totalidade do poder no Império de Cuxe/Kush (abrangia o norte do Sudão, o sul do Egito e partes da Etiópia, Eritréia e Somália).

Pantera Negra retoma essa realeza guerreira de nossas Candaces, esta representação nos dá as primeiras personagens femininas pretas fortes que lutam em coletivo em todo o universo cinematográfico Marvel. Sim, o matriarcado Africano foi representado e não somente na guarda real como também no conselho real. O que dizer da figura de Lupita no filme que traz o senso de justiça social e econômica acima de sua própria linhagem real.

A lição foi que as pessoas Pretas que têm sucesso não podem manter para si, mesmo que temam não poder proteger seu sucesso. Eles devem compartilhar seus avanços com os outros Pretos do Mundo para primeiro nos empoderar pela União e depois ajudar outras raças. Esta foi a tese de “Pantera Negra” e a razão pela qual todos os Africanos na face da Terra devem ver este filme.
Esses são valores de equidade que como povo negro sempre tivemos e temos por obrigação resgatar.

Nosso legado enquanto reinos pioneiros que dominavam a matemática, geometria, geologia e todas as ciências marítimas e da terra têm a figura na Princesa Shuri a materialização da Sabedoria, jovem mulher responsável pela manutenção da ancestralidade e do futuro de toda a WAKANDA, assim como nossos reis e rainhas africanos.

Perigo de SPOILER:  há um conceito africano que Shuri muito sabiamente passa ao fazer com que o uniforme do Pantera retenha e devolva em forma de energia todos os impactos recebidos de golpes: a energia que recebemos do universo nós devolvemos, uma vez que somos “golpeados”nos tornamos mais fortes para reagir à batalha.

O Matriarcado enquanto berço, força, justiça, saber e manutenção da nossa comunidade.

 

Do Black Money

Nos Estados Unidos o filme da Marvel bateu o recorde que era de ‘Batman vs Superman‘ e se tornou o filme de super-herói a ter o maior número de ingressos vendidos na pré-venda da história.

O filme também já havia ultrapassado ‘Capitão América: Guerra Civil’ na pré-venda. Com arrecadação de US$75.8 milhões em seu dia de estreia, Pantera Negra se tornou a oitava maior bilheteria em um único dia da história da indústria. O longa ficou em terceiro lugar entre filmes de super-herói, perdendo apenas para Os Vingadores, com US$ 80 milhões e Vingadores: Era de Ultron, com US$ 84 milhões.

Espera-se que o filme seja um dos maiores filmes da história da Marvel e da indústria cinematográfica.

De filmes como Get Out (Corra) até Black Panther (Pantera Negra), o poder do Black Money é legitimado: nos EUA os negros tem gastos anuais US$ 1,2 trilhões e são apenas 13% da população. Aqui no Brasil somos quase 55% da população e temos gastos anuais de cerca de R$1,7 trilhões. Não podemos ignorar o poder de nosso dinheiro, imagine se direcionarmos apenas 30% do nosso consumo para comprar exclusivamente de empreendedores pretos… Imagine o salto da qualidade de vida que nossos irmãos e irmãs teriam!!!

Ainda há pessoas que acham uma febre exacerbada o movimento gerado por negros em todo o mundo com a estréia do filme Pantera Negra.
* Sim, Marvel é um antro branco e privilegiado que se abriu à oportunidade ao reproduzir Pantera Negra como super herói por verificar que o publico negro é ávido por representantes e possui poder de consumo.
* Sim, o dinheiro das bilheterias que estão tendo recordes de audiência em filmes desta categoria vão para bolsos de grandes conglomerados da indústria branca cinematográfica.

(*) Rolezinho de um grupo organizado no Rio de Janeiro 

Enquanto não investirmos em nossa própria rede de entretenimento, artes e cultura Hollywood continuará a lucrar. Exemplos como Nollywood (Nigéria) e Bollywood  (Índia) demonstram que é possível ser um país emergente que possui sua própria rede de produção e alto consumo da indústria cinematográfica.

Enquanto não apoiarmos os nossos cineastas negros e negras teremos que trabalhar com alguns parênteses sobre CONSUMO X CIRCULAÇÃO de riquezas dentro da comunidade negra no campo do audiovisual no Brasil.

Mas, SIM existe um legado e uma onda de valorização da auto estima de famílias e jovens negros ao se reunirem em comunidade para ocupar em lotação salas de exibição do filme. Isto não tem preço, PANTERA NEGRA trará um legado de crianças pretas que relatarão por toda uma vida a primeira vez que se viram retratados como ícones em inovação, beleza, ancestralidade e união.

Black Panther é a representação de que estamos certos em acreditar no Movimento Black Money e que seremos juntos a porta para uma nova geração que representará a cultura e o orgulho negro.

 

Wakanda Forever

Equipe MBM